O Que Esperar do UP Club e da Curadoria do Universo Paralello em 2026
Por Oneide Schneider | Edição Julho 2026 •
O Universo Paralello se prepara para mais um capítulo de sua longa história na cultura eletrônica brasileira.
Entre os dias 27 de dezembro de 2026 e 4 de janeiro de 2027, a Praia de Pratigi, na Bahia, volta a receber uma das experiências mais importantes do calendário internacional de música eletrônica.
Depois de mais de duas décadas construindo uma identidade própria entre música, natureza, arte e convivência, o festival chega a uma nova edição diante de um cenário eletrônico em constante transformação.
E, entre as principais expectativas, está a evolução de sua curadoria.
Especialmente no UP Club.
Uma visão que nasceu antes do festival
Para compreender o presente e o futuro do Universo Paralello, é necessário olhar para sua origem.
Por trás do festival está Juarez Petrillo, conhecido artisticamente como DJ Swarup, uma das figuras fundamentais para a consolidação do Psytrance no Brasil.
Ao lado da DJ Ekanta Jake, Swarup participou da construção de uma visão que ultrapassava o conceito tradicional de um evento de música eletrônica.
O Universo Paralello nasceu como uma proposta de convivência, liberdade artística, contracultura e conexão humana.
Antes de se estabelecer na Praia de Pratigi, na Bahia, o festival teve suas primeiras edições em Goiás. A mudança de território não significou o abandono de sua essência.
Pelo contrário.
A chegada à Costa do Dendê ampliou a relação entre música, natureza e comunidade, transformando o festival em uma experiência que se tornou referência internacional.
O pioneirismo de Swarup e a construção de uma cultura
A trajetória de Swarup está diretamente ligada à história do Psytrance brasileiro.
Durante os anos 1990 e o início dos anos 2000, o artista esteve em contato com diferentes movimentos da cultura eletrônica internacional, incluindo a cena de Goa, na Índia, um dos territórios fundamentais para o desenvolvimento do Trance Psicodélico.
Ao trazer referências dessa cultura para o Brasil, Swarup ajudou a construir uma linguagem que encontraria terreno fértil no país.
Mas sua contribuição não se limitou à música.
A grande transformação estava na visão de comunidade.
O Universo Paralello foi pensado como um espaço onde diferentes expressões culturais pudessem coexistir.
Música, arte, performance, natureza, liberdade e convivência passaram a fazer parte de uma mesma experiência.
Essa visão continua presente na estrutura do festival até hoje.
O UP Club como termômetro da pista contemporânea
Dentro da arquitetura do Universo Paralello, cada palco possui uma identidade própria.
O Main Floor mantém sua relação histórica com o Psytrance.
O 303 Stage permanece conectado às vertentes mais profundas e psicodélicas da cultura Trance.
O Tortuga amplia a experiência para outras linguagens da música eletrônica e da Bass Music.
Já o UP Club ocupa uma posição estratégica dentro desse ecossistema.
É uma pista que acompanha diretamente as transformações do underground contemporâneo.
Nos últimos anos, o público passou a buscar experiências cada vez mais amplas, capazes de atravessar diferentes territórios sonoros.
O House tornou-se mais orgânico.
O Progressive ganhou novas camadas cinematográficas.
O Melodic Techno aproximou-se de estruturas mais emocionais.
O Afro House e o Organic House conquistaram espaços importantes nas pistas internacionais.
O Techno passou a dialogar com novas texturas e atmosferas.
Nesse cenário, a expectativa em torno do UP Club para 2026 é justamente entender como sua curadoria irá interpretar esse momento.
A curadoria como continuidade de uma visão
Embora cada palco possua equipes, curadores e produtores responsáveis por suas respectivas linguagens, existe uma direção conceitual que atravessa todo o Universo Paralello.
A visão original de Swarup continua sendo uma referência central para o festival.
A expansão das vertentes musicais não representa um afastamento das raízes.
Pelo contrário.
É uma consequência natural de uma proposta que sempre compreendeu a cultura eletrônica como algo plural.
O Universo Paralello não foi construído sobre uma única sonoridade.
Foi construído sobre a ideia de que diferentes expressões podem coexistir dentro de uma mesma experiência.
É nesse contexto que o UP Club se torna tão relevante.
Sua curadoria pode representar uma das principais leituras sobre o momento atual da música eletrônica brasileira.
Progressive House e Melodic Techno em expansão
Entre as sonoridades que devem continuar ocupando um espaço importante na experiência do UP Club estão o Progressive House e o Melodic Techno.
As duas vertentes atravessam um momento de grande transformação.
O Progressive continua explorando construções longas, atmosferas profundas e narrativas que se desenvolvem gradualmente.
Já o Melodic Techno ampliou sua presença global ao unir impacto de pista, elementos melódicos e estruturas emocionais.
A aproximação entre esses universos criou uma nova linguagem que conversa diretamente com o público contemporâneo.
Na Praia de Pratigi, essa experiência ganha uma dimensão ainda mais particular.
A duração do festival permite que os sets sejam construídos com mais liberdade, sem a necessidade de condensar toda uma narrativa em poucas horas.
A presença das sonoridades orgânicas
A relação entre música e natureza sempre esteve no centro do Universo Paralello.
Por isso, vertentes como Organic House e Afro House encontram um ambiente natural dentro da experiência do festival.
A força das percussões, dos vocais, dos instrumentos orgânicos e das atmosferas solares cria uma conexão direta com o ambiente da Costa do Dendê.
A expectativa é que essas sonoridades continuem ganhando espaço em momentos estratégicos da programação, especialmente durante o pôr do sol e as transições entre o dia e a noite.
Mais do que uma tendência internacional, essa presença representa uma conexão natural entre o território e a música.
A importância dos artistas brasileiros
Um dos pontos mais relevantes da curadoria do Universo Paralello é sua capacidade de conectar o Brasil ao circuito internacional.
O país possui uma das cenas eletrônicas mais criativas do mundo, com artistas que transitam por diferentes linguagens e desenvolvem identidades cada vez mais autorais.
O UP Club pode funcionar como uma importante vitrine para essa produção.
A presença de artistas brasileiros ao lado de nomes internacionais cria um ambiente de troca e reconhecimento.
Para a nova geração do underground, tocar em um festival dessa dimensão significa muito mais do que uma apresentação.
Significa acesso a novos públicos, conexão profissional e validação dentro de um dos maiores ecossistemas da música eletrônica mundial.
Um legado que atravessa gerações
A história do Universo Paralello também se conecta a uma trajetória familiar dentro da música eletrônica brasileira.
Juarez Petrillo e Ekanta Jake são pais dos artistas Alok e Bhaskar, que cresceram em contato direto com as pistas, a cultura eletrônica e o universo construído ao redor do festival.
Essa continuidade representa uma das características mais particulares da história do Universo Paralello.
A música eletrônica, nesse caso, não foi apenas uma profissão.
Foi uma cultura vivenciada dentro de casa e transmitida entre gerações.
Ao mesmo tempo, a trajetória de Alok e Bhaskar também demonstra como diferentes caminhos podem surgir a partir de uma mesma raiz.
Do Psytrance às grandes arenas globais, a história da família Petrillo se tornou parte da própria evolução da música eletrônica brasileira.
O festival como espaço de descoberta
Uma das características mais importantes do Universo Paralello é o tempo.
Durante vários dias, o público tem a possibilidade de explorar diferentes palcos e experiências.
Essa estrutura favorece a descoberta de artistas que talvez não estivessem no radar dos frequentadores.
O público pode chegar ao festival buscando um determinado nome e terminar a experiência completamente conectado a outro.
É justamente nesse processo que a curadoria se torna fundamental.
O festival não apenas apresenta artistas.
Ele cria caminhos para que o público descubra novas possibilidades.
O que esperar da edição de 2026
Mais do que tentar prever nomes ou tendências específicas, a expectativa em torno do UP Club está relacionada à capacidade do festival de continuar interpretando o presente.
A música eletrônica mudou.
O público mudou.
As pistas mudaram.
Mas a necessidade de experiências autênticas continua a mesma.
O UP Club deve seguir como um dos espaços mais importantes para observar essa transformação.
Uma pista onde o Progressive, o House, o Melodic Techno, o Organic House, o Afro House e outras vertentes podem encontrar diferentes pontos de conexão.
Ao mesmo tempo, a curadoria do Universo Paralello continua diante de um desafio fundamental: preservar sua essência enquanto permite que novas gerações encontrem espaço dentro de sua história.
Um novo capítulo na Costa do Dendê
O Universo Paralello não é apenas um festival que apresenta música eletrônica.
É uma experiência que construiu uma comunidade.
Por isso, cada nova edição também funciona como um retrato do momento vivido pela cultura eletrônica.
Em 2026, a expectativa é que o UP Club continue ampliando seus horizontes, aproximando diferentes vertentes e fortalecendo a presença de artistas brasileiros em uma plataforma de alcance internacional.
Se existe algo que a história do Universo Paralello demonstra é que a inovação nunca esteve distante de suas raízes.
Ela sempre nasceu da capacidade de transformar a pista em espaço de encontro.
E, na próxima edição, a pergunta não será apenas quais artistas estarão no palco.
Será também quais novos caminhos a curadoria irá abrir para a música eletrônica brasileira.
Porque, por trás de cada palco, existe uma visão.
E, por trás da visão do Universo Paralello, permanece a ideia que guiou sua história desde o início: a música pode ser uma experiência, a pista pode ser uma comunidade e um festival pode se transformar em uma cultura.