Alok e Bhaskar no Burning Man: A Essência do Underground Reinventada na Playa
Por Oneide Schneider | Edição Setembro 2026 •
Existe uma diferença entre tocar em um grande festival e entrar em um ambiente onde a própria lógica de festival deixa de ser o centro da experiência.
O Burning Man, realizado no deserto de Nevada, nos Estados Unidos, pertence a essa segunda categoria. Black Rock City nasce temporariamente todos os anos a partir da participação de milhares de pessoas, reunindo arte, música, instalações, expressão individual, comunidade e experiências que dificilmente encontram paralelo na estrutura convencional da indústria cultural.
Foi nesse território que Alok, sob seu projeto artístico Something Else, encontrou um contexto particularmente interessante para explorar uma dimensão diferente de sua identidade musical.
E a experiência ganhou ainda mais significado quando Bhaskar, seu irmão, se juntou a ele para um B2B na Playa.
Dois irmãos. Um mesmo deck. Uma história musical que começou muito antes da fama internacional.
Mais do que uma apresentação, o encontro representa um momento em que trajetória, experimentação e liberdade artística se encontram no mesmo espaço.
Alok Sob o Nome Something Else
É importante entender Something Else como um projeto artístico de Alok.
Não se trata de outro artista, mas de uma identidade criada pelo próprio Alok para explorar uma perspectiva diferente de sua produção e de sua relação com a música eletrônica.
Se a carreira principal de Alok o levou a alguns dos maiores palcos do mundo, Something Else permite trabalhar outra atmosfera.
É uma oportunidade para investigar sons, ambientes e narrativas que não necessariamente precisam seguir a lógica dos grandes momentos de festival.
E o Burning Man oferece justamente esse tipo de liberdade.
Na Playa, a música pode ser construída de maneira mais contemplativa, hipnótica e experimental. A experiência não depende exclusivamente de grandes drops ou de estruturas previsíveis.
O foco pode estar na atmosfera, na jornada e na conexão entre música e ambiente.
É nesse espaço que Something Else encontra uma de suas possibilidades mais naturais.
Quando Bhaskar Entra No Jogo
O momento ganha outra dimensão quando Bhaskar aparece para dividir o deck com Alok.
O B2B entre os dois irmãos não é apenas um encontro entre dois artistas brasileiros.
Existe uma história anterior.
Antes das grandes carreiras individuais, antes dos festivais internacionais e antes da dimensão global alcançada por Alok, os dois já compartilhavam experiências musicais.
A relação dos irmãos com a música começou ainda na adolescência, incluindo o projeto Lógica, quando tinham aproximadamente 12 anos.
Décadas depois, os caminhos percorridos foram diferentes.
Mas a música continuou funcionando como um ponto de conexão.
Na Playa, essa conexão volta a aparecer de maneira espontânea: Alok e Bhaskar dividindo novamente o mesmo espaço musical.
O B2B Como Encontro de Duas Trajetórias
Um B2B exige escuta.
Cada artista precisa perceber o movimento do outro, responder às escolhas, encontrar espaços e construir uma narrativa conjunta.
Quando os envolvidos possuem uma relação familiar e uma história musical tão longa, essa dinâmica ganha outra camada.
Não é simplesmente uma sequência de músicas.
É uma conversa.
O deck se transforma em um território de troca entre duas identidades que cresceram juntas, mas que também desenvolveram caminhos próprios.
De um lado, Alok através de Something Else, explorando uma faceta mais experimental de sua expressão artística.
Do outro, Bhaskar, com sua própria trajetória e identidade dentro da música eletrônica.
O resultado é justamente o que torna um B2B interessante: nenhum dos dois precisa desaparecer para que o outro apareça.
A Playa Como Laboratório
O Burning Man não funciona como um festival convencional.
Black Rock City é uma cidade temporária construída pelos próprios participantes e organizada em torno de princípios como participação, expressão pessoal, comunidade e criação artística.
Essa estrutura transforma a Playa em uma espécie de laboratório cultural.
Ali, diferentes linguagens convivem.
Arte digital.
Esculturas monumentais.
Performances.
Instalações.
Música.
Tecnologia.
Moda.
Comunidade.
Tudo isso cria um ambiente onde artistas podem experimentar sem necessariamente precisar responder às mesmas expectativas encontradas em grandes circuitos comerciais.
É justamente por isso que a presença de Something Else nesse contexto desperta interesse.
O projeto de Alok encontra um espaço onde a experimentação não precisa ser uma exceção.
Ela pode ser parte da própria experiência.
Quando o Mainstream Encontra o Underground
A trajetória de Alok torna esse encontro particularmente simbólico.
Poucos artistas brasileiros alcançaram uma dimensão internacional comparável dentro da música eletrônica.
Mas existe uma questão importante nessa transição:
ser mainstream significa necessariamente abandonar o underground?
A resposta pode ser mais complexa do que parece.
O underground não precisa ser definido apenas pelo tamanho da pista.
Também não depende exclusivamente de um gênero musical.
Ele pode existir como liberdade criativa, independência estética, experimentação e disposição para fugir de fórmulas.
É nesse ponto que a experiência de Alok como Something Else ganha relevância.
O artista não precisa negar sua trajetória comercial para explorar outras possibilidades.
Ele pode utilizar a experiência adquirida em grandes palcos para construir novos caminhos.
A História dos Irmãos Volta à Playa
Existe algo especialmente simbólico no fato de Alok e Bhaskar dividirem um B2B em um ambiente como o Burning Man.
Antes dos grandes números, existia a descoberta.
Antes dos grandes festivais, existia a curiosidade.
Antes das carreiras individuais, existia uma história compartilhada.
A música foi parte da vida dos dois desde muito cedo.
E décadas depois, essa história reaparece em um dos ambientes mais singulares da cultura contemporânea.
Não como uma tentativa de reproduzir o passado.
Mas como uma lembrança de que por trás de grandes carreiras ainda existem pessoas que começaram simplesmente pela paixão pela música.
O Underground Não É Uma Estética
Existe uma tendência contemporânea de transformar o underground em uma estética facilmente reconhecível.
Pistas escuras.
Galpões.
Roupas específicas.
Determinados gêneros.
Determinados BPMs.
Mas a essência é muito mais profunda.
Underground é uma postura diante da criação.
É questionar fórmulas.
É experimentar.
É construir comunidades.
É buscar novas linguagens.
É preservar identidade.
É permitir que a música continue sendo descoberta.
Nesse sentido, o Burning Man talvez represente uma das manifestações mais interessantes dessa filosofia.
A Playa não precisa parecer underground.
Ela simplesmente cria condições para que a experimentação aconteça.
Something Else Dentro Desse Universo
É justamente nesse ponto que precisamos compreender a presença de Alok através de Something Else.
A proposta não precisa ser interpretada como uma ruptura completa com sua carreira.
É mais interessante enxergá-la como uma expansão de sua identidade artística.
Um espaço para experimentar outras atmosferas.
Outras narrativas.
Outras formas de construir uma pista.
E quando esse projeto encontra a Playa e, posteriormente, divide o deck com Bhaskar, a experiência ganha uma dimensão ainda mais pessoal.
O artista global encontra o irmão.
A carreira encontra a história.
O presente encontra as raízes.
E a música faz a conexão.
O Brasil Também Está na Playa
A presença de artistas brasileiros em ambientes internacionais como o Burning Man também evidencia a dimensão que a música eletrônica produzida no Brasil alcançou.
Mas internacionalização não precisa significar simplesmente exportar nomes.
Ela também significa levar histórias, referências e identidades brasileiras para diferentes espaços do mundo.
Alok e Bhaskar representam uma dessas histórias.
Uma história que começou cedo, atravessou diferentes fases da música eletrônica e chegou a um dos ambientes culturais mais singulares do planeta.
O B2B na Playa funciona, portanto, como uma imagem poderosa dessa trajetória.
Do Brasil para o mundo.
Da adolescência para a maturidade.
Dos primeiros experimentos para uma carreira internacional.
E, finalmente, de volta à essência: dois artistas compartilhando música.
Uma Cidade Que Desaparece, Uma Experiência Que Permanece
O Burning Man possui uma característica que reforça ainda mais sua força simbólica.
Black Rock City é temporária.
Ela surge no deserto e depois desaparece.
O evento de 2026 teve como tema “Axis Mundi” e aconteceu entre o final de agosto e o início de setembro.
A estrutura física pode ser desmontada.
Mas as experiências permanecem.
Para um artista, talvez esse seja um dos maiores valores de passar pela Playa.
Não necessariamente voltar com uma resposta.
Mas voltar com novas perguntas.
Novas referências.
Novas possibilidades.
E talvez seja justamente isso que Something Else representa dentro dessa experiência: uma oportunidade de lembrar que mesmo depois de alcançar os maiores palcos, ainda existe espaço para procurar algo diferente.
A Música Continua Sendo o Ponto de Encontro
No final, o que torna o encontro entre Alok e Bhaskar tão interessante não é apenas o tamanho de suas carreiras.
É a história que existe antes delas.
Dois irmãos que começaram juntos.
Dois artistas que seguiram caminhos diferentes.
E que, em determinado momento, voltaram a dividir o mesmo deck.
No Burning Man, sob a identidade artística de Something Else, Alok encontrou um ambiente onde a experimentação podia assumir o protagonismo.
Com Bhaskar ao seu lado, essa experiência ganhou uma dimensão ainda mais simbólica.
Porque a verdadeira força de um B2B não está apenas na música que toca.
Está na conexão entre quem está atrás do deck e quem está diante dele.
E talvez seja essa uma das maiores lições que a Playa oferece:
a música eletrônica pode crescer, alcançar o mundo e ocupar os maiores palcos sem perder a capacidade de experimentar.
No deserto, por algumas horas, não existem fronteiras entre passado e presente.
Existe apenas música.
E, quando dois irmãos dividem o mesmo deck, a história fala por si.